Aversu
'Não era a vaidade que a atraia para o espelho, mas o espanto de descobrir-se" (Milan Kundera)
quarta-feira, 14 de março de 2012
Cheiro bom
Encurralei meus olhos nos corredores de tua vista e percebi que o que havia de novo era eu. Difícil cegar-me às coisas de dor e feridas, porque não havia o que ver, nunca houve, mas foi impossível não sentir. E, agora, em meu olfato estava impregnado os cheiros de outros dias, mas era tão bom estar perto, aprendendo a sentir somente o que vale ser sentido. O calor das mãos, a poesia nas conjugações de rotina, o hábito de colar-se em lençóis. Tão bom que o passado foi virando somente uma foto desbotada guardada em baú mofado e fatalmente iria desfazer-se. Carreguei em minhas mãos qualquer coisa que cheirasse bem e segui, com um sorriso, um olhar e duas vidas.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Só se morre no fim
Sim, há muito em mim, mesmo que brote dos lábios frios de outono, em que me chove a vida, ainda há muito. E não saberia dizer diferente, porque aprendi a soluçar quando nasci e desde então sigo assim, como Macabéa, que pede desculpas por existir. Sim, há muito em mim, porque não sei ser só. Não sei ser só uma. Ora sou força, vontade, coragem, ora me dói a dor de sentir pena de mim. Mas passa, passa logo e rápido e não sobra muito disso tudo. Mas, sim, há muito em mim. Porque sou feita de exclusões, de ausências, e assim, há muito em todos nós. Sim, há muito em mim porque sou você também. Como neném que chora só por não saber falar. E assim, segue. Vou seguindo meu caminho, e em breve estarei tão perto que mal conseguirei enxergar as novas cores do pecado, mesmo porque não há pecado. Sejamos, então eu e você, num risco eterno de pecar e ser perdoado, até que um dia, voltemos ao começo. Sim, há muito em mim e eu te desafio a vim aqui acabar com tudo isso. Sou eu e um milhão de vezes a minha multiplicação. Sim, sim, sim, meu corpo agora fica em êxtase, como se fosse impossível parar de escrever. É mais forte do que minha respiração. Eu travo, prendo e mesmo assim respiro. Não, sobre escrever não há nada que eu possa fazer. As palavras veem e me consomem, e vão brotando dos meus dedos como se vivas fossem. Sim, há muito em mim, e a canção que eu fiz acabou... Sim há muito em mim, e acho que eu morri. Porque só se morre assim, no fim.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Supetão
Veio
me convidou para uma dança
com uma voz suave e mansa
me enlaçou com um poema
me delatei em um cinema
e se apaixonou meu coração,
tudo assim, de supetão.
me convidou para uma dança
com uma voz suave e mansa
me enlaçou com um poema
me delatei em um cinema
e se apaixonou meu coração,
tudo assim, de supetão.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Quando se morre...
Finalmente morri. Foi ontem, mas eu precisava de um tempo até me acostumar com a idéia de que pessoas mortas podem escrever. Finalmente morri. Foi uma experiência fascinante, porque foi possível ver meu corpo parado, imóvel, e ainda assim era eu. Morri porque não soube agir diferente, não soube ser de outra forma, não soube viver. Morri sim, porque estava em apnéia quando meu coração rompeu. Finalmente morri e, hoje, a vida dos outros continua, sem intervalos, sem pausas, sem luto. Morri e os dias seguiram. Finalmente morri e morrer, perdão Clarice, não é o paraíso. Finalmente morri e não houve uma lágrima, um olhar mareado, uma saudade amarela. Morri e ninguém rezou para que eu voltasse à vida. Morri e talvez fosse exatamente esse o desejo da vida. Morri porque esse era o meu destino, embora eu não acredite muito em destino, mas agora ele me convenceu. Finalmente eu morri. Não houve velório, enterro, nada. Finalmente morri e eu não sei como agir neste novo estado. Não sei ser morta. Não sei. Finalmente morri, mas senti que foi na hora errada. Ainda havia muitas coisas a fazer, contas a pagar, brigas a resolver, o canudo, o futuro. Finalmente morri, mas não foi como eu pensei e ainda sobrou muita vida em mim.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
O dia em que o amor morreu
Peguei os lençóis molhados de suor e coloquei ao sol. Naquele mesmo dia havia a dor de um amor partido, então era preciso secar as coisas, inclusive os lençóis. Na manhã, ainda com o sol a pino, algumas lágrimas molharam lençóis meus e embora já se passem algumas semanas eles ainda não secaram. Precisei ter força para levantar os lençóis até a corda e pendurá-los. Naquele mesmo dia o amor foi rompido e se transformou em nada. Foi preciso ter pressa, porque era preciso fugir dali e viver. Foi preciso tirar do corpo as outras marcas e desenhar novas. Era preciso ter pressa, porque tudo lhe dava náuseas, lhe enchia de desprazer e havia outra vida, havia outros lençóis, havia outro você. Era preciso ter pressa, então na tarde daquele mesmo dia, enquanto um chorava e morria, o outro ria. E, assim, desse jeito, um amor se desfez.
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