domingo, 15 de novembro de 2009

Bicicletas


O poeta é da palavra, e não o inverso.
Mas, para quem não é poeta e já virou prosa, as frases são mais distintas.
Meus dedos enferrujados, acanhados, são cada vez menos literais.
Ah! Como eu queria que escrever fosse como andar de bicicleta. Eu montaria nos verbos conhecidos, nos versos acolchoados, só para passear entre os períodos curtos, meus preferidos. Usaria os apostos, como portos. Andaria de navio para desviar das nuvens de um céu nublado.
Meu tempo me pertence, embora nem sempre eu lembre disso. Mas enquanto meu texto me escreve, eu sinto o sopro da Fênix em minha nuca. Um renascer constante, entre o estar e o que há por vir.
Agora, sou eu quem segura os arreios, e faço desse texto minha morada. Uso as letras como os pedaços de pão de João e Maria. Vou tentar não me perder. E, de passo em passo, letra em letra, minha rigidez articular vai se desfazendo, meus artelhos vão me consumindo e pedalando em velocidade cada vez maior.
Interessante como a intensidade da vida as vezes pode ser inversamente proporcional às dos textos. Embora seja sempre tão importante conciliar o intangível com o visceral.
Agora eu sinto o vento afagando meus cabelos. De braços abertos para o próximo perído, encontro o equilíbrio. Fecho os olhos e meu texto é quem me guia. Voltar é sempre vivo.
Reencontrei o caminho de casa.

sábado, 9 de maio de 2009

Gotas



São as formas de sentir.
Cada átomo em seu devido lugar, num formato absolutamente novo. Cada partícula em mim teria uma opinião agora. Havia uma imensa discussão a respeito das possibilidades do sentir. E o som das gotas despencando sobre o solo...Já estava amanhecendo e o mundo era...eu.
A lua em seu formato singular, e seu desespero de nunca ter sido sol.
Meus substantivos que insistem em ser verbo... São tantos numerais. Sinto os pés congelarem e meu coração explode de fervura. Eu sabia. Era verdade.
A verdade é que eu sempre fui assim, e não poderia ser diferente. Não por não saber, mas por não caber em mim. Só há possibilidade de ser um de cada vez...
Mas o um é outro e volta a ser um. Não, eu também não entendo.
Agora, são as gotas da música que despencam em minhas orelhas, todas elas. E as letras desabam sobre meu pensamento.
Aqui, não há espaço para tudo, mas é possível ser muitos, porque somos assim. Os pensamentos se entrelaçam e só o que resta é o transbordo. É uma maneira de dizer. É só uma delas.
As gotas sumiram, a música acabou, e minhas letras tomaram conta de mim. Hoje sou tão cada uma delas que virei gramática. Embora ainda não saiba qual a palavra que falta no meu vocabulário. Pois não saberia dizê-la. Mesmo assim, ela fica inteiramente pulsando em meus giros e sulcos. Não há mais nada o que fazer. Agora, são só frases que se perderam e ainda não encontraram o caminho.
Boa sorte, lua. Mas, eu ainda prefiro que jamais seja.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sombra e água



Dezessete vezes eu rezei hoje. Orações de outros tempos, outros povos. Era como presenciar a sombra de uma árvore que cresce e te cerca. Mas, eram apenas os olhos verdes de quem sente frio... Não sei ao certo sobre os passos que foram seguidos, mas talvez seja melhor assim.
São muitas as verdades, e eu não conheço quase nenhuma. Ainda que perdurem as minhas dúvidas, e estas sejam formas de alcançar o intangível. Nada será tão real, ou mais real comparado àquele céu enorme sobre a minha cabeça.
Hoje completam três dias de pura insônia. Mas, se não durmo minhas palavras reagem ao corpo cansado e dolorido de quem não se mexe por décadas.
Agora eu vejo, sim. Agora posso ver todas as luzes da cidade. Cada ponto de luz. Ei! Você também está brilhando...
Eu sinto a minha pele se aquecendo, mesmo depois de todo aquele gelo. Agora eu posso derreter em paz.
Nunca serei assim, tão água.
Vinte e três vezes eu disse sim. Mas, o mais possível às vezes é o que nos parece mais difícil. Eu entendo. Você ainda não sabe da tua luz. Não conhece a si mesmo. Portanto, não há como obedecer o teu inconsciente.
E, mesmo nos meus sonhos mais profundos eu não lembro. Não sei dos meus pecados. Acho que estou caducando ainda na infância. Ou, na verdade, eu estava com a razão o tempo todo.
Embora ninguém nunca saberá a resposta da motivação, eu lhes digo que nunca houve nada tão puro quanto o nada.

domingo, 23 de novembro de 2008

O olhar


Aquela era a noite que havia sonhado três meses atrás. A lua cheia me seguindo, como quem reza para saber dos meus pensamentos. Tola. Nem eu sabia. Eram frases soltas e desconexas de lembranças que não faziam o menor sentido. Era um perigo. Os olhos perdidos entre as pedras portuguesas que cercavam meu chão. Minhas mãos escondidas nos bolsos da calça...A mesma calça daquele dia... Uma gota de mim que cai e se arrebenta no solo ainda quente, de uma tarde que prometia chover. Não choveu. Meus passos foram me entregando ao desconhecido. Era o medo de querer. Uma nuvem imensa cobriu minha lua, e agora, cá estava eu, só novamente. Talvez, ela tenha desistido de mim, dos meus versos de vez, das verdades que mal cabem nos meus textos. Talvez eu deva desistir também.

Agora esse cheiro de mar impregna em minha roupa. Como se ao querer saber de mim, tentasse estar o mais perto possível, o mais dentro possível, o mais eu possível...A brisa noturna me empurra para longe, e eu fico cada vez mais insistente. O sangue que eu tentei esconder, agora escorre pelas barras da calça. E eu já nem lembrava que havia sangrado tanto. Havia sutura, havia curativo, mas hoje... Hoje os pontos abriram, e eu juro que pensei em usar o bisturi... O sangue escorreu tanto que pintou o chão da cidade inteira. Passou pelo Farol, pelo Porto, subiu a ladeira, encontrou o índio na praça...Desceu a Contorno e entrou no mar...no Forte. Minhas pernas estavam fracas. Caí. Mas, o sangue foi readquirindo seu lugar. Cada gota, cada porção vermelha...

A lua voltou. Ela que havia ido embora, voltou porque havia sonhado comigo. Ainda não sei como ela consegue adivinhar meus planos... Já não havia sangue algum. Eu levantei, olhei para o céu, senti o cheiro intenso de mar que estava em meus pulmões. Tirei as mãos do bolso. Também elas estavam limpas. Meu anel de coco íntegro, e meus versos maduros. Já não tinha medo das minhas mãos... Nem dos meus erros, mesmo que este fosse o motivo...Pensei em afogar minhas reticências, mas depois percebi que elas eram tudo o que havia sobrado de mim. E, agora, já não havia mais nada a perder. Mas, perdi. Perdi teu sonho, tua imaginação, teus rascunhos, teus textos, e perderei tuas vitórias. Não há nada que eu possa fazer...Eu sei, meu coração não há de pertencer a mim... Sou reticências demais para ele. Ponho as mãos nos lencóis e estrago tudo. Te acordo, atrapalho teu sonho e tua noite. Você nem está aqui. Nem sabe que saí de casa e fui viver a lua e o mar.

sábado, 8 de novembro de 2008

Baú


Tantos anjos que sabem de mim,
que escoltam minhas madrugadas,
de tantas noites perdidas,
eu já sou quase nada...
Eram frases incompletas,
em que quis que você lesse
o exato que não estava escrito,
porque não me havia permitido.
Tantos caminhos tortos,
e pés covardes,
são meus caracteres perdidos...
Tanto que há em mim,
e ficará guardado
naquele baú do Gil,
que se faça de aço.
Eu fecho os olhos e esqueço,
e é neste momento que imagino um recomeço.
Mas, hoje não sou eu que escrevo,
e amanhã também não será.
Hoje, eu sou só paixão
mas...você não saberá.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Glicemia

Peguei um balde de tinta
e meu pincel...
Hoje eu pinto o céu,
e nada vai me deter...
Hoje eu escolho o sorriso mais bonito
e entro no circo...
Hoje eu calço qualquer solado,
e se você quiser, siga-me!
Hoje sou eu quem acende as estrelas,
ainda que seja dia...
Hoje me chamo Querubim,
ainda não sei falar de mim,
e não estou a procura do fim,
nem de versos ruins...
Hoje sou só disposição
e se você atravessar a rua
eu vou adorar.
Mas, eu sei que pra você já era...
Também não fiz a coisa certa,
e não há alguém disposto a me ensinar.
Hoje eu sou solidão,
e deve haver algo doce nisso tudo...

sábado, 11 de outubro de 2008

Sexta-Feira

Encontrei o pecado numa cesta.
Mas, guardei meu veneno para mais tarde.
Agora não é hora de morrer pela boca.
Ainda mais se tenho as pernas soltas...
Leio muito a seu respeito,
e não me acho em parte alguma.
E, os verbos teus que me encontram,
não são só meus...
Eu sei, meu navio parte às oito,
e não sei se volto,
mas, daí vem a pergunta:
Por que não ir comigo?
Correr por entre os dias das semanas...
Encontrei o pecado no paraíso...
Encontrei o pecado numa sexta.