domingo, 15 de novembro de 2009

Bicicletas


O poeta é da palavra, e não o inverso.
Mas, para quem não é poeta e já virou prosa, as frases são mais distintas.
Meus dedos enferrujados, acanhados, são cada vez menos literais.
Ah! Como eu queria que escrever fosse como andar de bicicleta. Eu montaria nos verbos conhecidos, nos versos acolchoados, só para passear entre os períodos curtos, meus preferidos. Usaria os apostos, como portos. Andaria de navio para desviar das nuvens de um céu nublado.
Meu tempo me pertence, embora nem sempre eu lembre disso. Mas enquanto meu texto me escreve, eu sinto o sopro da Fênix em minha nuca. Um renascer constante, entre o estar e o que há por vir.
Agora, sou eu quem segura os arreios, e faço desse texto minha morada. Uso as letras como os pedaços de pão de João e Maria. Vou tentar não me perder. E, de passo em passo, letra em letra, minha rigidez articular vai se desfazendo, meus artelhos vão me consumindo e pedalando em velocidade cada vez maior.
Interessante como a intensidade da vida as vezes pode ser inversamente proporcional às dos textos. Embora seja sempre tão importante conciliar o intangível com o visceral.
Agora eu sinto o vento afagando meus cabelos. De braços abertos para o próximo perído, encontro o equilíbrio. Fecho os olhos e meu texto é quem me guia. Voltar é sempre vivo.
Reencontrei o caminho de casa.

2 comentários:

Thalita, disse...

Lindo!

Eu queria dizer tudo isso e não sabia, e não sentia...

Obrigada por dizer, Mar.
Obrigada por continuar.

Rafael Costa disse...

Retornar é fundamental. Mesmo quando a casa ja nem te pertence como antes.

Abraços

Rafa